Este tem sido o ano das surpresas no RPG, com o aparecimento de novas editoras e novos formatos de divulgação, venda, apresentação e distribuição dos livros, mas nada vai mais ao extremo do que o Era Perdida RPG.
Enquanto estamos acostumados com livros de papel em nossas sessões de jogo (nas minhas eles toma quase que a mesa inteira) e mais recentemente os livros em formato PDF, usados nos notebooks e tablets (até hoje não consigo ler nada em um tablet!), a editora Revistaria Digital inovou e muito.
Esqueça o livro físico, de papel, esqueça os formatos eletrônicos em arquivos locais. Para ler o Era Perdida, você terá um login e senha para acessar o livro diretamente do site da editora, em qualquer lugar onde você vá jogar (desde que tenha Internet). Para ler o livro há um aplicativo especial para isto.
Eu que tenho muitos livros na minha prateleira e apenas alguns no computador, não consegui me adaptar a experiência de ler um livro de RPG na tela do notebook, para mim é cansativo, não é tão bom quanto ler um livro de papel. Outro problema é a questão da Internet, você necessariamente precisará de uma conexão para ter acesso ao livro. No caso de jogar em um local sem Internet não será possível acessar o livro, portanto arrume um modem 3G e um notebook.
A vantagem é que você nunca perderá o arquivo ou o livro, não vai ter folhas soltando da encadernação, as páginas não irão ficar manchadas, amassadas ou com orelhas e você só precisará carregar o seu notebook ou tablet na bolsa. O programa para navegar no livro é muito simples de utilizar, algo que não consegui ajustar direito foi para ver a página inteira sem precisar colocar em visualização de tela cheia, mas fora isto é muito fácil navegar pelas páginas do livro.
Mas vamos ao conteúdo do livro.
O livro começa com instruções de como utilizar o programa de leitura, muito conveniente tendo em vista a novidade. Depois temos as informações de praxe, como os autores, ilustradores eu uma introdução ao conteúdo do livro.
O que é RPG?
Pra valer o livro começa com a tradicional introdução ao que é RPG, apresentando aos novatos no hobbie, do que se trata, o que precisa e como jogar. O texto tenta ser explicativo, mas não explica muito detalhadamente, a sensação é de que aquele seu amigo que joga RPG está tentando te explicar como funciona, para alguns funciona, para outros não.
Criando o seu personagem
O capítulo explica como criar um personagem para o Era Perdida, tarefa que é bastante simples, não é muito trabalhoso criar um personagem, já que o sistema limita bastante as escolhas dos jogadores em prol do equilíbrio, o que é muito bom, já que logo de cara é explicado pelo autor que o sistema de jogo é voltado para o combate.
O sistema possui cinco atributos, Força, Destreza, Habilidade, Vitalidade e Conhecimento. Força serve para os testes em que se exige o poder físico, força muscular bruta, além de acrescentar dados no dano que o personagem causa com armas de combate corpo-a-corpo; Destreza serve para movimentos que envolvam as mãos, como trabalhos manuais, bater carteiras, abrir fechaduras, desarmar armadilhas, dentre outras coisas, e serve para acrescentar dados de dano em armas de combate de distância, como arcos, e para bônus em armas de combate de curta distância; Habilidade é similar a Destreza, só que serve para verificar a capacidade do personagem em correr, esquivar, subir muros, etc., o valor conta na iniciativa do personagem; Vitalidade serve para verificar a resistência do personagem à fadiga e doenças, bem com, acrescenta o seu valor à defesa do personagem; Conhecimento são coisas que o personagem aprendeu ao longo do tempo, serve também para determinar quais técnicas de combate o personagem possui e quantas vezes por combate ele poderá usá-las.
O sistema não utiliza valores numéricos ou modificadores de atributos como outros sistemas, mas bolinhas, como no storytelling (jogos como Vampiro, Mago ou Lobisomem), limitada a quantidade total de atributos a seis bolinhas.
O sistema possui soluções bem inteligentes e simples para a evolução do personagem, nunca vi um sistema tão simples e baseado em coisas tão óbvias quanto os jogos eletrônicos que vemos por aí, tipo Ragnarok, realmente lembra muito, mesmo a forma que o personagem adquire experiência para passar de nível.
No mesmo capitulo somos apresentados aos equipamentos, no caso somente armas e armaduras. No livro temos apenas as explicações sobre como funcionam as armas, mas sem uma lista muito detalhada ou grande de armas, na verdade é uma tabela bem pequena. Já as armaduras eu achei bem interessante a forma que elas funcionam, mas acredito que no quesito de velocidade de jogo a mecânica escolhida irá dificultar um pouco, já que você adquire a sua defesa a partir das armaduras que o teu personagem usa, no caso as armaduras dão dados de defesa, sempre que o teu personagem sofrer algum dano sempre você terá que rolar os dados da armadura para subtrair este dano.
No fim do capítulo somos apresentados às Técnicas, que na realidade são magias que podem ser aprendidas por qualquer personagem desde que tenha ao menos um ponto no atributo Conhecimento. As técnicas são divididas em dois tipos: Magias, que servem mais para o combate e Ofícios, que servem mais para questões mundanas.
O seu personagem tem um número de vezes limitado para usar as Técnicas durante um combate, esse número também é medido pelo valor no atributo Conhecimento. No livro temos uma lista curta de Técnicas, que por sinal são bem fortes desde o primeiro nível. Os efeitos não são bem explicados e o texto não está claro, o que poderá resultar em várias discussões durante os jogos.
Algo legal também é que para aprender algumas Técnicas é preciso ser bem sucedido em uma Quest (aventura) com o objetivo de aprendê-la. Isto é bem típico de MMORPG, como Ragnarok ou World of Warcraft, mas é interessante, pois gera interesse e envolvimento do jogador com a aventura narrada. No final do capítulo temos um exemplo bem didático de como se montar um personagem.
Aprendendo a Jogar
O capítulo ensina como se joga o RPG Era Perdida, mostrando como funciona o sistema. A primeira vista parece simples e até familiar para os jogadores mais experientes. O sistema utiliza dados de seis faces para a resolução de todos os testes, geralmente você terá que rolar vários dados para realizar os testes.
Algo engraçado é que parece uma junção do sistema Coda (do Senhor dos Anéis RPG com o Storytelling), mas com os defeitos de ambos. Em tese todo o processo de se rolar um combate, por exemplo, é muito fácil, mas você terá que realizar pelo menos quatro rolagens de dados para definir o dano que o seu oponente sofreu, rolando uma pilha de dados relativamente grande. Eu me lembro quanto era irritante, quando jogávamos Legends of Five Rings (um RPG baseado em um mundo parecido com o Japão feudal, que usa um monte de d10 para os testes) e tínhamos que rolar 20 d10 em testes bastante bobos. Os combates em Era Perdida serão irritantemente demorados e maçantes, a não ser que os jogadores e o mestre tenham muito jogo de cintura e inteligência.
Já os testes simples, resistidos e de embate, são bem mais fáceis e rápidos, basta rolar 1d6 e somar o atributo envolvido, dependendo do caso, deverá superar uma dificuldade ou vencer um oponente, isto é muito mais fácil e prático.
O sistema de Era Perdida é genérico, ou seja, pode ser utilizado em qualquer cenário, mas existe um que é o oficial, chamado de Meerã. No livro é pouco detalhado só dá pra saber informações bem básicas, mas ele não difere muito dos outros cenários mais simples, de qualquer forma eu recomendo que ele seja utilizado, já que ele está mais no “clima” do jogo.
Extra
É um capítulo que apresenta a política da editora de contar com a colaboração dos jogadores para criar novos livros e suplementos ao Era Perdida, nada além do que você já encontra no site.
O livro possui ilustrações bem bacanas, as mais belas são as que abrem os capítulos, algumas são fracas, mas são a minoria. A diagramação é bem diferente dos livros comuns, mas é bem gostoso de ler, exceto as caixas de texto que possuem cores muito berrantes, sendo algumas até mesmo difíceis de ler.
O texto do livro é fácil de compreender, muito informal, é quase como se um amigo estivesse explicando como funciona o sistema, isto não é ruim, mas às vezes incomoda um pouco, principalmente nas introduções dos capítulos.
No geral o livro e o sistema são bons, tem alguns defeitos, mas como é voltado para jogadores iniciantes, todo o esquema de simplicidade ajuda muito, além do fato de remeter a elementos conhecidos por muitos, como termos e situações presentes e jogos eletrônicos.
Dados técnicos:
Páginas: 66
Formato: 308,29 x 182,36
Orientação: Paisagem
Cor: 100% colorido
Imagens: Ilustrações coloridas e P&B
Preço: R$4,90


